Vale a Pena Assistir a Série: Anderson Spider Silva?



   Foi lançado no final do mês de novembro de 2023 a série “Anderson Spider Silva”, produzida e divulgada pela plataforma de streaming Paramount +. Tinha muitas expectativas com a série? Diria que mais ou menos, visto que as últimas obras brasileiras do tema não haviam me agradado. Mas nutria esperança, visto a suntuosidade da produção, e atores de peso no elenco. Minhas expectativas se cumpriram? Vejamos.

   A série tem um padrão de produção bem mais elevado do que os filmes que versavam temas parecidos, como “Mais Forte do Mundo: A História de José Aldo” de 2016, e o mais recente “O Faixa Preta: A História de Fernando Tererê” de 2023. Com um orçamento bem maior que as outras produções, a série consegue se destacar por conta de cenários, ampla utilização de personagens, figurino e maquiagem de muita qualidade.

     Em cinco episódios, que tem em média de quarenta a cinquenta minutos, somos carregados por toda linha temporal da vida e carreira do lutador de MMA mundialmente conhecido Anderson Silva. A série começa de um ponto chave, a qual a maioria dos fãs reconhecem, a emblemática luta de Anderson Silva contra Chael Sonnen, para daí, nos levar a conhecer a juventude de Anderson em Curitiba, entre os anos 1980 e 1990.

     Deste início de jornada, somos apresentados ao núcleo familiar de Anderson, que vamos aos poucos descobrindo que ele na verdade é criado pelos tios, morando com primos, os quais trata como irmãos. Um dos pontos positivos da trama é a interação natural da família, que tem seu alicerce nas ótimas atuações de Seu Jorge, como o rígido e disciplinador Tio Benedito, e na atuação, que pra mim mais se destaca, da bondosa Tia Edith, interpretada magistralmente por Tatiana Tiburcio. O elenco do núcleo principal se saí muito bem, destaque para a representatividade de atores negros, os quais são ampla maioria do elenco geral.

    A proposta da série, segundo o próprio homenageado da obra, Anderson Silva, em entrevista ao Giro 89 do site da Rádio 89 Rock é: “A história, não é só sobre o Anderson, é uma história sobre uma família negra, tradicional, que venceu muitas barreiras através do amor e afeto”. Logo, quem for assistir a série ansiando ver retratada a carreira desportiva do Spider, assim como eu fui, pode se decepcionar um pouco.

    O maior tempo de tela fica para os dramas da vida pessoal de Anderson, dividido com momentos da carreira de lutador dele. Os dramas pessoais de Anderson e sua família são o foco maior da série, a parte das lutas é o motor que faz o roteiro ir avançando no tempo. Neste ponto começam meus problemas com a obra.

     Aqui começam minhas críticas, embasadas em dois conceitos que aprecio quando assisto uma obra que retrata artes marciais: fidelidade aos fatos e coreografias de luta. Enquanto assistia, me localizava no espaço tempo que a série retratava, somente porque acompanhei a carreira de Anderson desde seu início, lá nos anos 2000, mas o roteiro da série não localiza bem alguém que não conheça estes detalhes. Quanto as coreografias de lutas, elas em alguns momentos deixam muito a desejar.

     As lutas de Anderson por si só são material suficiente para se construir boas coreografias de cena, mas em geral, elas são muito pouco aproveitadas na maior parte do tempo. Em alguns momentos, o ator que interpreta Anderson se saí bem, mas outros momentos, fica explicito a limitação técnica do ator para desempenhar a coreografia, algo que seria facilmente resolvido com uso de dubles, câmeras e imagens reais dos combates. Mas para mim, o ponto mais frágil da série é o roteiro.

    O roteiro acaba por ir e voltar no tempo, caminhando de forma linear em alguns momentos, e em outros voltando no tempo para explicar algo. Os saltos temporais entre um capítulo e outro são muito abruptos, deixando para trás muitos pontos importantes da carreira de Anderson. Conhecendo a história dele, três pontos importantes da trajetória de Anderson não foram utilizados, fazendo passar batido, para mim, importante material.

    O primeiro que notei, foi a primeira derrota da carreira de Anderson Silva, no ano de 2000, no evento nacional Meca World Vale Tudo, em que em sua estreia na cidade de Curitiba. O promissor Anderson Silva foi derrotado por Luís Azeredo em sua estreia no evento, mas a série nem se quer cita esta derrota. O segundo ponto que senti falta, foi a derrota emblemática de Anderson no extinto evento japonês Pride Championship, quando o Spider sucumbiu diante de uma chave de calcanhar voadora, aplicada pelo japonês Ryo Chonan. Estas duas derrotas foram pontos cruciais na carreira do Spider, mas a série ignorou estes momentos.

    Outra crítica que tenho, já é mais de cunho regionalista. Em sua estreia no Vale Tudo, que na série é chamado de MMA desde o início, talvez para não confundir o público, Anderson Silva foi ao Mato Grosso para fazer sua estreia. Não entendi a mudança de Campo Grande-MS, local real em que ocorreu o evento, para Cuiabá-MT. Seria falta de senso geográfico dos produtores ou escolha da série por questões legais? Para mim, um Sul-Mato-Grossense, foi decepcionante esta mudança.

     O roteiro passa batido também o período em que Anderson deixou o Pride, e se aventurou por solo inglês, no extinto evento Cage Rage. Foi neste tempo que magia da técnica impar Anderson Silva aflorou. A série nem se quer cita que um dia ele lutou por lá.

    Um ponto que o roteiro patina também, é na criação de conflitos e desenvolvimento de personagens. Alguns dos conflitos terminam mal explicados, ou simplesmente são descartados sem quaisquer resoluções. Um exemplo deste furo, está na trama envolvendo primeiro professor de Vale Tudo de Anderson na série. Somos apresentados a uma rixa com deste professor com o técnico da “Black Gloves”, que para mim pareceu a representação da Chute Boxe, no qual muitas farpas e acusações são feitas pelos personagens. O conflito foi criado, o roteiro prometeu explicar o motivo da rixa, mas ele avança, e deixa para trás todo este enredo sem nos dar uma resposta.

     Outro quesito que o roteiro não vai tão bem, é em relação aos personagens secundários. Somos apresentados a eles, os atores fazem boa atuação, mas eles aparecem e somem ao longo da trama, sem que saibamos seus destinos. Deste elenco coadjuvante, para mim o que pior foi utilizado foi Rodrigo Minotauro. O “Mestre”, como Anderson se refere a ele na vida real e na séria, foi uma figura que na história real teve muito mais impacto do que a suas poucas aparições em tela, fora a dor no coração que dá ver o baiano Antônio Rodrigo Nogueira, ser interpretado por um ator com forte sotaque carioca.

    Mas para mim o personagem pior utilizado na série é Chael Sonnen. Imaginei por ele ter sido um personagem tão bom no teatro da vida real de Anderson, a série lhe daria tempo de tela, mas ele mal deu as caras... Minha expectativa era ver o impacto na vida pessoal de Anderson que teve a rivalidade com seu grande nêmesis. O material produzido durante os dois confrontos que tiveram, com direito a muito trash talking, tornou a luta em uma desavença pessoal. Chael na vida real foi um rival com personalidade, carisma e que mexeu com os brios do campeão, mas nem sequer um diálogo envolvendo Chael a série explorou

    Nos já citados saltos temporais abruptos, vi sendo ignorados grandes momentos da carreira de Anderson Silva. Bem verdade que a série foi muito audaciosa em querer englobar toda a extensa carreira desta lenda das artes marciais, mas diria que, nas escolhas que teve, não conseguiu dar dimensão do tamanho dos feitos desportivos do personagem principal que inspira a obra.

    Existem vários recursos que fazem avançar no tempo demonstrando eventos dsa atividades realizadas em longo período. Com um vasto material que a produção tinha os direitos de imagem de uso, seria fácil fazer recortes rápidos que dessem ao expectador o vislumbre da trajetória brilhante de Anderson Silva no esporte, mas a série optou por em cada episódio avançar para pontos distantes da carreira do Spider.

    Se a série patina muito no roteiro, já seu foco principal, o drama familiar, ela consegue funcionar bem. A atuação e roteiro ajudam a criar empatia pelos personagens desenvolvidos dentro do núcleo familiar de Anderson, conseguindo emocionar com dramas e conflitos familiares, e mostrando parte dos bastidores da vida pessoal de um ídolo do esporte.

    Por fim, vale a pena assistir a série Anderson Spider Silva? Diria que sim, por mais que veja muitas falhas técnicas, que me incomodam às vezes, mais por conta do meu conhecimento bem próximo da carreira profissional de Anderson, a série consegue cumprir parte do que promete, apresentando de forma emocionante o drama e conflitos pessoais de um astro do esporte, que vai da humildade e poucos recursos em seu início, para a fama e fortuna de uma estrela do esporte de nível Global. Terminamos a série conhecendo um pouco mais do ser humano Anderson Silva, só isto já faz valer muito a pena assisti-la.

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